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05 dezembro 2012

O jovem na medicina é tema de destaque no jornal Medicina

Com a visão econômica e tecnológica ganhando espaço, a saúde cada vez mais susceptível de ser encarada como objeto de consumo e as escolas – muitas delas incapazes de oferecer qualificação adequada – oferecendo, todos os anos, 17 mil novos médicos para um mercado já marcado por múltiplas pressões, os jovens médicos enfrentam uma série de desafios e vivenciam muitas vezes situações-limite. Na edição de novembro do jornal Medicina, já disponível para leitura on-line, apresentamos a visão de experientes profissionais sobre esse cenário e abordamos alguns aspectos do atual panorama da medicina no país.

Como é tradição, trazemos também as principais novidades relativas à saúde pública e suplementar. Uma notícia importante é a reinserção dos médicos no Conselho Nacional de Saúde (CNS), o principal fórum de participação popular e controle social em saúde do país. Diversas outras faces deste cenário de trabalho e atuação dos médicos também são tratados. Destacamos o posicionamento do CFM sobre a avaliação dos egressos das escolas médicas expressa em audiência no Senado Federal e o desempenho dos médicos que se candidataram a prefeitos e vereadores nas Eleições 2012.

Também entre os destaques, ações do CFM relativas ao bem estar dos pacientes e à remuneração do médico na saúde suplementar, como o parecer 39/12, que aborda o pagamento de honorário pela gestante referente ao acompanhamento presencial do trabalho de parto. O CFM continua firme no propósito de melhorar as condições de trabalho na saúde suplementar. Outro esforço recente, que os médicos poderão conhecer nesta edição, é a ação inédita, que conta com coautoria do CFM, e requer que a ANS vincule autorizações de aumento nas mensalidades a aumentos de honorários médicos.

Confiram esses e outros temas na edição 214 do jornal Medicina:
http://portal.cfm.org.br/images/stories/JornalMedicina/2012/jornal214.pdf

24 outubro 2012

A paixão de ser médico

Neste outubro, quando se comemora o Dia do Médico (18), volto meus olhos para o futuro. Do passado levo comigo as lições hipocráticas recebidas dos inúmeros mestres que ajudaram a moldar minha trajetória. Não renego os percalços e dificuldades. Aprendi com eles. Afinal, somos todos feitos assim: dessa equação ilógica que soma tempestades às calmarias, multiplica sonhos bons em detrimento dos ruins, eleva à enésima potência nossos projetos concretizados com suor.

A Medicina é uma paixão, é entrega. Surge como vocação orientada pela solidariedade e pelo compromisso com a equidade, a justiça e a ética. Nestes tempos sombrios, de um século que dá seus primeiros passos, cabe aos médicos arrebatados por esse ofício exercê-lo sem se curvar às pressões e à indiferença. O desafio é defender a fé naquilo que nos move: a busca do diagnóstico, a oferta do tratamento e a promessa de consolo a quem está fragilizado pela doença.

Em tempos de crise, devemos ser médicos. Não somos mercadores da saúde, garotos propaganda ou vassalos de quem quer que seja. Somos homens e mulheres preparados para salvar vidas. Não se comportar à altura de tão importante missão significa pactuar com a mediocridade de interesses outros, que se postam quilômetros distante de onde estamos.

Acompanhamos atentamente - e com preocupação - o comportamento errático de setores diretamente ligados ao trabalho médico. O momento é de tensão. Gestores públicos anunciam medidas sem se preocupar com consequências para a qualidade da Medicina praticada no país. Ignoram as necessidades de pacientes e profissionais. O lucro político fala mais alto que a responsabilidade técnica e ética.

Na saúde suplementar, as operadoras de planos de saúde querem ganhar mais e mais, sem cumprir as promessas feitas aos 48 milhões de clientes do sistema suplementar e nem valorizar os quase 200 mil médicos que lhes prestam serviços, sem os quais não existiriam. Eles deturparam seu papel e se transformaram o bem estar em produto à venda. O pior é que nem são comerciantes confiáveis, daqueles a quem estendemos as mãos de olhos fechados. Para eles, a vida é menos importante que percentuais e taxas de risco.

Colegas, neste outubro, vamos mirar no que nos espera. Somos muitos e contamos com o respeito e a credibilidade da sociedade. A população espera reação da categoria diante dessas pressões, pois sabe que nossa luta implica em melhores condições de assistência onde quer que seja. O brasileiro, atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou dono de uma carteirinha de convênio, sabe que o esforço dos médicos para mudar realidade trará, finalmente, o atendimento que espera.

As bandeiras devem ser manter no alto. Nada de esmorecer. Continuaremos a exigir um ensino médico de qualidade, o aumento dos investimentos públicos em saúde, a melhora das condições de trabalho, a criação de uma carreira do médico no SUS, um basta aos abusos praticados por planos de saúde e a valorização da Medicina, como atividade profissional. Uniremos nossas vozes em um grito único, forte, poderoso, capaz de mover montanhas. O futuro nos chama. É para lá que devemos ir. Os médicos - estou convicto disso - estão prontos para mais essa batalha em defesa da Medicina, da sociedade e do paciente.

Roberto Luiz d’Avila
Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

04 outubro 2012

Quando o aluno não tem o perfil

Antonio Carlos Lopes, 64, é diretor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

A prática da medicina está ameaçada no Brasil. Basta abrir as páginas dos jornais para constatar uma verdadeira crise anunciada que inclui notícias como a abertura indiscriminada de escolas médicas, a flexibilização da residência médica e as tentativas de revalidar automaticamente diplomas de médicos formados no exterior sem exigir comprovação de capacidade, apenas para citar alguns exemplos.

O resultado desse cenário é um profissional com formação deficiente para exercer a medicina.

Sempre digo que para ser médico, além da disposição para enfrentar, com trabalho árduo, as dificuldades habituais inerentes à profissão, são necessárias características especiais. É fundamental gostar de gente. O bom médico também deve ser imbuído de firmeza de caráter, senso humanístico, consciência coletiva, amor à vida. Esses atributos não são adquiridos na faculdade. É uma questão de formação pessoal.

Hoje, com a porta dos vestibulares aberta, a seleção coloca para dentro das escolas médicas principalmente os candidatos que têm mais conhecimento teórico, não os que de fato possuem as importantes características citadas acima.

Por isso considero absurda a abertura de grande número de vagas sem critério de avaliação rigoroso. Desse jeito, é grande a probabilidade de entregarmos a prática da medicina a indivíduos com as mais distintas fragilidades.

Atualmente, mesmo em vestibulares bem feitos e nas principais escolas medicas, sempre nos deparamos com alunos que passam pela seleção, mas que não têm perfil adequado para a medicina. O indivíduo se arrasta pelo curso de graduação, mas, quando chega à residência médica e é impelido a tomar decisões e conviver com a morte, não possui estrutura psicológica.

No exercício desta profissão, as decisões que podem ou não salvar vidas são tomadas sem ter quem confira. Quem que não tem vocação acaba abandonando o curso, desenvolvendo depressão ou outros distúrbios psicológicos.

Para evitar tantos problemas advindos da deficiência do vestibular, o ideal seria que os pretendentes à carreira médica fossem avaliados também por um exame psicotécnico. Na medicina, não lidamos com máquinas, mas com seres humanos. Essa prerrogativa é, por si só, um diferencial em relação às outras profissões liberais.

O Brasil não precisa de tantos médicos. Precisa, sim, de bons médicos. E selecionar bem os futuros profissionais da medicina é primordial para mudar a triste realidade da saúde no país.

Paralelamente, é mister continuar lutando pela implantação de uma política de governo sólida que fixe os profissionais em regiões afastadas, com remuneração digna e possibilidade de desenvolvimento contínuo. Aí sim, alcançaremos o que sempre sonhamos.

Fonte: Antonio Carlos Lopes

09 setembro 2012

Governo do Brasil tortura a Medicina

Chega um determinado momento em que a indignação não pode ser contida. É possível fechar os olhos perante o problema uma vez, mas quando o incômodo cresce em ritmo exponencial, a gente explode. E o “incômodo” de que precisamos tratar é sobre o que estão fazendo conosco, com os estudantes de medicina e com os médicos formados.

São projetos de lei que visam diminuir o salário dos médicos federais em 50% – ou aumentar sua carga horária para o dobro, o que é a mesma coisa – ou é o deputado Edson Pimenta propondo que o médico autônomo atenda pacientes por valores abaixo da tabela do SUS, a título de “caridade”, gerando uma economia para o Estado. E sobre o ensino médico, temos hoje a meta da Presidenta Dilma de criar 4.500 novas vagas de medicina no país, por ano, em universidades que sequer têm hospital escola ou são reconhecidas pelo MEC, ou mesmo enquanto as universidades que já existem sequer estão em atividade devido à greve, por falta de negociação com os professores, que também trabalham em regime de “caridade, gerando economia para o Estado”.

O Ministério da Educação já autorizou, em junho, a abertura de 9 cursos de medicina particulares, num total de 800 novas vagas anuais, sendo a maior parte delas nas regiões sul e sudeste do país, regiões em que o número de médicos é muito maior do que a demanda. Há a escassez de médicos em regiões sem infra-estrutura, onde, enquanto o governo não investir seus impostos, nenhuma alma bondosa vai arriscar a sua vida e sua profissão trabalhando sem recursos, sem segurança e sem materiais. O PROVAB – Projeto de Valorização da Atenção Básica – procura levar os médicos formados nos grandes centros para as regiões mais remotas e já está sendo um fracasso, simplesmente porque médicos não são curandeiros e não podem resolver os problemas de saúde apenas com um estetoscópio.

Enquanto isso, os médicos vão se formando e se acumulando nos grandes centros, submetendo-se a altas cargas de trabalho para receberem dignamente, ou digladiando-se para conquistarem uma vaga na residência médica. Afinal, nenhum profissional vai sair desbravar o Brasil sem garantia de retorno, de plano de carreira, de valorização.

Ainda assim, o MEC anunciou que irá criar mais 2.415 novas vagas de medicina em cursos já existentes até 2014. Parece não haver argumento que convença o Planalto de que essa manobra eleitoreira e demagógica vai ruir as bases do bom atendimento à saúde em nosso país. Médicos existem! Somos já o segundo país com o maior número de escolas de medicina (196) perdendo apenas para a Índia (202). Porém, a Índia tem mais de um bilhão de habitantes, em quanto nós estamos na casa dos 200 milhões. Em defesa da saúde dos cidadãos e da qualidade do exercício da medicina do Brasil, a Associação Médica Brasileira, a Associação Paulista de Medicina e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, com apoio das sociedades de especialidade, repudiaram em nota oficial a intenção do Ministério.

Este é um apelo à população médica e também à população geral, que não compactuemos com essa medida política errônea que vai contaminar toda a medicina brasileira. Precisamos é de infra-estrutura, precisamos que nossos impostos retornem em hospitais, em políticas de saúde resolutivas, verbas para que o SUS funcione, educação de qualidade, com professores que sejam bem pagos e ensinem com vontade. As políticas de saúde têm sido tratadas com medidas simplistas e errôneas, guiadas pela demagogia. O câncer dessa gestão está enviando metástases para a medicina, e vamos sucumbir lentamente se nenhuma terapia for administrada.

19 agosto 2012

Onde vão parar os alunos de medicina?

Onde vão parar os alunos de medicina?

Entra governo, sai governo e se mantém o vilipêndio ao ensino médico no Brasil. O Ministério da Educação autorizou, em junho, a criação de mais nove cursos de medicina particulares com 800 vagas no total, sendo 520 nas regiões Sul e Sudeste, onde hoje já se concentram 72% dos médicos brasileiros. As novas escolas estão nas cidades de Votuporanga (60 vagas) e São José do Rio Preto (160 vagas em dois cursos), em São Paulo; Belo Horizonte (120 vagas) e Betim (120 vagas), em Minas Gerais; e Londrina (60 vagas), no Paraná. As demais ficam em Recife/PE (120 vagas), Cajazeiras/PB (60 vagas) e Salvador/BA (100 vagas).

Ao ler estes números, é simples constatar quão infundado se apresenta o argumento de que seriam necessárias mais escolas de medicina porque há cidades e regiões que não contam com esses profissionais. Falácia. Provavelmente, nenhum dos médicos que vierem a se formar em um desses novos cursos privados irá trabalhar em uma cidade ou região carente de médicos. Eles farão, sim, parte de um sistema saturado de médicos nas instituições de melhor qualidade. Disputarão acirradamente vagas em programas de residência médica e poucos conseguirão ser selecionados. Resistirão a trabalhar na periferia dos grandes centros onde estudaram. Se vierem a fazê-lo, perderão muitas horas de sua vida no trânsito e estarão sujeitos a todo tipo de cobrança e violência nas unidades de saúde. Precisarão fazer muitos e muitos plantões para somar uma remuneração razoável, que sequer de longe será suficiente para cobrir, em médio prazo, as altas mensalidades pagas à faculdade. Não se sentirão atraídos a começar a vida profissional em um local distante, sem garantias e sem perspectiva de retorno. Acabarão tendo múltiplos empregos e vínculos, sem conseguir dedicar-se à prática médica da maneira como sonharam. Sem conseguir estudar de forma continuada. Sem conseguir cuidar de si. Esperando que, um dia, o trabalho médico venha a ser valorizado no serviço público e pelos planos de saúde. Sabe-se lá quando.

Se esta é a realidade dos atuais médicos jovens, o que se dirá a respeito dos futuros profissionais? E o MEC foi além. Anunciou publicamente que pretende criar mais 2.415 vagas em cursos de medicina já existentes e em outros a serem abertos até 2014. Em defesa da saúde dos cidadãos e da qualidade do exercício da medicina do Brasil, a Associação Médica Brasileira, a Associação Paulista de Medicina e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, com apoio das sociedades de especialidade, repudiaram em nota oficial a intenção do Ministério.

Atualmente, já temos 196 escolas médicas no país, somando 16.892 vagas. Sete foram criadas em 2011, sendo cinco particulares, uma municipal e uma estadual. Este ano, além das nove já mencionadas, foi criada uma federal em fevereiro. No quadro geral, são 82 cursos públicos (federais, estaduais e municipais) contra 114 privados, criados principalmente de 1967 a 1970 (auge do período militar), 1997 a 1999 (segundo mandato do governo FHC) e desde 2002 até nossos dias (governos Lula e Dilma). A interesses de quem o Executivo tem se empenhado em atender? Os dados estão todos disponíveis no site www.escolasmedicas.com.br.

Curioso é que, embora anuncie sem pudor ou justificativa plausível a proliferação de escolas médicas, o MEC não menciona nada sobre o que será feito com os cursos de má qualidade, o que se comprova nas notas do Enade, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes. Das 141 instituições avaliadas na última edição, 23 (quase 17%) tiveram notas entre um e dois e nenhuma obteve a nota máxima (5). O ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, convidado para presidir uma comissão de especialistas responsável por avaliar essas escolas, desistiu após meses e meses de diversas visitas técnicas, pareceres, termos, estabelecimento de critérios e... avanço nenhum. Precisamos ser mais incisivos ao cobrar, diuturnamente, essas respostas.

*João Sobreira de Moura Neto
Diretor de Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina (APM)

28 junho 2012

PARA ONDE QUEREM LEVAR A PROFISSÃO MÉDICA?

PARA ONDE QUEREM LEVAR A PROFISSÃO MÉDICA?“Não sois máquinas; homens é o que sois”.
(Charles Chaplin)

Certa vez, estava eu, em Salvador, na condição de presidente da AMB, prestigiando um movimento reivindicatório dos médicos estaduais, quando ao ser entrevistado por repórter local, me foi, por uma ela relatado, o seguinte diálogo: “Perguntei ao governador Nilo Coelho, se ele não estava preocupado com uma possível demissão em massa dos médicos”. Em resposta ele teria afirmado com ironia e desprezo: “para mim, médico é como sal: branco, barato e eu encontro em todo o lugar”. Eu preferi não responder naquele momento. O fato passou e o tempo também. Contudo, nos dias de hoje sou obrigado a refletir sobre o que ele disse, diante da triste realidade que atinge o ensino superior, preocupando-me sobremaneira com o que possa vir acontecer.

Nosso país conta, hoje, com 196 escolas médicas. Só neste século foram criados 93 cursos. Nove de uma vez no último dia 5. Outros 18 novos cursos foram autorizados para diversas IES federais, na dependência apenas de ato autorizativo do MEC, para iniciarem seus cursos. Ou seja, 27 novas faculdades autorizadas em apenas um dia. Ao mesmo tempo, também se aumentava o número de vagas do primeiro ano (1.395 novas vagas) em diversas escolas federais, mais especificamente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

É uma verdadeira “festa política”, equivocada e desastrosa, apenas para atender ao desejo do Planalto que quer, porque quer, mais 4.500 vagas em medicina.

Além do mais, 51 cursos médicos até agora autorizados a funcionar, precisam ainda submeter-se ao processo de reconhecimento, sem o que os diplomas por elas atribuídos não poderão ser registrados em CRM para o exercício legal da profissão.

Mais autorizações estão a caminho e, provavelmente, virão “enriquecer” o já tão comprometido cenário do ensino médico no Brasil.

Neste verdadeiro “festival de escolas médicas”, a Comissão de Ensino Médico do MEC presidida pelo Prof. Dr. Adib Domingos Jatene, que durante três anos auxiliou, de forma honorífica, as decisões da SESu/MEC, sequer foi consultada, numa demonstração clara de descaso do Ministro da Educação para com seus membros.

A inafastável garantia de qualidade e a necessidade social dos novos cursos foi deixada de lado para que a meta determinada pela Presidenta Dilma seja alcançada.

É oportuno, portanto, citar mais uma vez, o ex-consultor da República, prof. Dr. Saulo Ramos, que no seu Parecer nº SR-78 enfatizou, em dois itens, o seguinte:

Item 33 “A educação, direito de todos e dever do Estado, não pode ser transformada, sobretudo nos cursos superiores, em simulacro diplomado. A sociedade deseja médico que saiba medicina, que se tenha preparado cientificamente para cuidar da saúde do povo e que não seja, pela precariedade do ensino improvisado na industrialização de diplomas, uma ameaça à vida do paciente assim como o advogado mal formado é ameaça ao patrimônio e á liberdade individual e o engenheiro, sem curso sério, é candidato a construir obras que desabarão”.

No item 34: ele arremata seu pensamento : “Não se pode permitir, isto sim, o desabamento da estrutura do ensino brasileiro, com a instalação de curso de medicina sem os mínimos recursos, sem hospital na região, sem corpo docente, sem bisturi. O dever do Estado é ministrar a educação e, no curso superior, assegurar o conhecimento científico que irá, efetivamente, beneficiar a comunidade. O simples diploma não cumpre essa finalidade, antes, seria um estelionato contra a sociedade e uma grave lesão á teologia constitucional”.

Há que se impedir que, os que integram uma profissão tão digna quanto sublime se transformem em “mercadoria ou máquinas”... e menos ainda, em “sal”.

Dr. ANTONIO CELSO NUNES NASSIF, 78, foi presidente da Associação Médica Brasileira e é membro da Comissão de Ensino Médico do MEC. Curitiba, 11/06/2012 – nassif934@gmail.com

22 maio 2012

Faltam médicos ou planejamento?

Novamente o sistema de saúde, que representa 8,8% do PIB brasileiro, competindo com o Petróleo (10%), divide a primeira capa dos jornais. O sistema de saúde é dissecado nas páginas de economia, policial e de ciência, infelizmente, não obrigatoriamente nesta ordem. As curas são superadas pela corrupção e descaso. Aqui pouco importa a ordem. Sofremos pelas doenças e com a hipocrisia.

Os jornais retratam o óbvio. A questão não é salarial. Médicos não são atraídos por salários de R$ 39 mil reais para trabalhar no importante Programa de Saúde da Família. Por que será? Querer ir para o interior já foi um atrativo, mas não é mais. Inicialmente a questão parecia ser salarial. Paga-se então mais. Mas poucos querem ir e muitos, após pouco tempo, voltam as suas origens ou buscam outros lugares. Por que? Ganha-se mais, gasta-se menos e quem sabe um dia vira-se prefeito?

Para começo de conversa ninguém, em sã consciência, pode trabalhar em saúde sozinho e sem estar adequadamente preparado. O curso médico é de seis anos. Após sua conclusão é necessário uma residência médica de dois a três anos. Então, este profissional, sem supervisão direta, pode cuidar de pacientes e continuar estudando pelo resto de sua vida profissional. Isto é ser um médico.

Para resolver a falta de profissionais, surgiu uma ideia mágica e incrível: forme-se, vá para interior, ganhe um “bom” dinheiro, treine (bastante) no pobre. Após um ou dois anos você tem assegurado um “bônus” extra nos pontos das provas seletivas para vaga numa residência ou pós-graduação, concorrendo com quem não foi para o interior “treinar”.

Criar mais vagas em cursos de medicina e facilitar a validação do diploma de quem se formou em outros países é outra ideia mágica. E mais um grande equívoco. O Brasil só perde para a Índia no número de faculdades de medicina. Vencemos até os EUA.

Das 185 faculdades de medicina autorizadas para funcionar no Brasil, a maioria é particular. O curso de medicina é o mais lucrativo de todos de ensino superior (R$ 3,5 a R$ 6 mil apenas pela mensalidade). Menos de 8% deixam de receber o diploma, um dos menores índices de abandono ou reprovação entre os cursos de nível superior. Estará havendo permissividade no ensino e na aprovação?

Após a diplomação, a maioria não consegue, por falta de vagas, fazer uma residência médica ou uma pós-graduação. Apenas com o diploma e com três ou quatro empregos, na maioria plantões de emergência, vão seguindo na vida. Preferem ganhar menos que a metade do que receberiam no interior em troca de ficar com suas famílias, com auxílio de outros profissionais e uma infraestrutura mínima. Dinheiro não é tudo, acreditem.

A ideia de validar automaticamente os diplomados em escolas argentinas, bolivianas e, principalmente, cubanas é uma ação criminosa. A maioria destes cursos tem curriculum defasado e faculdades mal equipadas. Os alunos, em grande parte, não foram submetidos a um processo seletivo regular, mas por indicação de caráter político, ideológica e condições sociais.

O índice de reprovação de mais de 98% destes candidatos pelo sistema atual de validação confirma o alerta feito pelo Conselho Federal de Medicina, a Associação Médica Brasileira e a Federação Nacional dos Médicos. Dos formados em Cuba, menos de 9% conseguiram validar seu diploma no Brasil. A experiência chinesa de formar meio médicos (barefoot doctors) ou os médicos de família cubanos que se preocupam com as “doenças das classes populares” é outro equívoco.

A doença não tem ideologia. A mais eficaz medicina preventiva não depende de médico ou de enfermagem, mas de saneamento, educação básica e funcional. O dengue, a tuberculose, a mortalidade materno infantil e a diarreia podem ser evitados com medidas sócioeducativas. Não poder pagar um professor primário menos de R$ 1,5 mil mensais é ridículo diante dos desvios das verbas públicas, verdadeiros casos de polícia. Talvez, e apenas nestas situações, adotar uma solução judicial chinesa ou iraniana não seria uma má ideia. Quem rouba da saúde, mata.

O sistema de saúde não é composto apenas por médicos. Necessita também de enfermeiros, técnicos, farmacêuticos e fisioterapeutas, apenas para citar algumas das mais de 20 categorias profissionais deste sistema. O SUS, nos grandes centros, é acessível a quase toda a população e de razoável qualidade.

Apenas perdemos em transplante de órgãos para os EUA. Tratamos os pacientes com Aids, diálise para renais crônicos e nosso programa de vacinação é altamente elogiado. O nosso maior problema está na desigualdade de oferta de serviços, entre as regiões do país, num mesmo mesmo estado, entre suas cidades ou mesmo em sua capital.

Não há sistema de saúde sem médicos e demais profissionais da equipe de saúde bem formados e que tenham condições mínimas para o exercício profissional. A maioria não vai ou não fica no interior por dinheiro, mas por querer compactuar com uma falsa assistência. As entidades médicas e demais categorias profissionais têm estudos com boas sugestões. Estamos abertos ao diálogo. Importar ou formar pela metade, vai duplicar o problema.

Autor
Alfredo Guarischi
Cirurgião oncológico e membro da Câmera Técnica de Oncologia do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj)
alfredoguarischi@yahoo.com.br

20 abril 2012

“Ato Médico tem tudo para ser aprovado neste ano”, aposta senador

O senador Antônio Carlos Valadares (PSB/SE), está confiante na aprovação do projeto de lei de regulamentação da medicina (SCD 268/2002) ainda neste ano. O parlamentar foi relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde foi aprovada em fevereiro. Ele afirma que “qualquer mudança de mérito não é mais permitida pelo regimento interno do Senado”, diz ele, que acredita no resultado, graças ao equilíbrio do texto aprovado. “Com a redação que lhe foi dada pela CCJ, tem tudo para ser aprovado em 2012, até porque o seu conteúdo é o melhor possível”, avalia.

As declarações do senador sergipano foram concedidas à Revista SOMESE (http://linux.alfamaweb.com.br/sgw/downloads/33_053248_revista126.pdf), publicação oficial da Sociedade Médica de Sergipe.

Confira a publicação da Sociedade sergipana e abaixo a íntegra da entrevista: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=22833:ato-medico-tem-tudo-para-ser-aprovado-neste-ano-aposta-senador&catid=3

Fonte: CFM

09 abril 2012

Conto de um professor arrependido

Conto de um professor arrependido

Embora, tendo sido alertado por Fernando Pessoa - de que “Se o coração pudesse pensar, pararia”-, faço essas minhas confissões, com ele, com o coração. Até por que, pouco me importa se ele parar neste momento: estou mesmo no meu fim e, por isso, tenho a lucidez, de quem está morrendo, diante de mim.

Ah! Além da lucidez, tenho também a dor. A difícil e incontrolável dor. Não das metástases, que teimam em ganhar a minha corrente sanguínea, atingindo os meus ossos: não é a dor do meu corpo, tomado de células cancerosas, da minha próstata, que me dói. E sim, a dor da minha alma. E como ela dói. Dói por saber que dos meus 65 anos de vida - quarenta dos quais dedicados ao ensino médico-, não consegui cumprir a minha missão: fracassei como professor.

Dizem os gnósticos que “pecar é errar o alvo”... e eu pequei! Pequei por ensinar aos meus alunos, não o essencial... Ensinei-lhes sobre ressecções e reconstruções; sobre qual a melhor incisão; o melhor fio de sutura a ser empregado em cada tecido, etc. etc., mas, deixei de ensinar-lhes sobre a verdadeira essência da medicina – que é a mesma da vida: “amar o próximo, como a nós mesmos!”

Ah! Quantas não foram às vezes que ao chegar, todo engravatado, cheio de empáfia, adentrando nas enfermarias, parecia mais um deus. Alguém que estava acima do bem e do mal. Um ser infalível e, o que é pior, essencialmente frio. Sem sentimentos e muito menos sem compaixão. Aí, ficava fácil juntar os residentes e doutorandos, em volta do doente, e nem ao menos lhe perguntar o seu nome; de onde ele vinha; se tinha família; se tinha um emprego; quais eram os seus sonhos... Nada. Absolutamente nada importava, a não ser a sua queixa principal, o seu exame físico, nem sempre minucioso e, principalmente, os seus exames complementares. Como adorava ficar mostrando todas aquelas películas de tomografia, apontando o lugar da doença e dizendo qual a operação seria realizada... Neste cenário de insensibilidade - entre as rivalidades sublimadas de staffs, residentes e doutorandos-, o paciente limitava-se apenas a exercer o seu papel de ator coadjuvante, onde ter um número do leito e um diagnóstico bastaria...

Meu Deus! Quantas não foram às vezes em que dizia: “Não se envolvam com os pacientes! Mantenham-se distante. O nosso papel é chegar, identificar o ‘erro’, consertar e cair fora”. Por isso, é de se entender que mesmo tendo operado mais de 400 casos, por ano, ao longo de todo esse período, não consigo me lembrar de nenhum rosto, dos meus pacientes. Nunca cheguei a olhar para eles, como seres humanos. Que pena... Afinal, “os olhos são as portas da alma”. É através deles, que poderemos enxergar a tristeza e a aflição do individuo que sofre pela sua doença.

Diz o Eclesiastes que “o sábio tem olhos, mas o tolo caminha na escuridão”. Então eu me pergunto: “Por que fui tão tolo? Por que fui tão cego? Por que via e não enxergava?” Via órgãos doentes; não enxergava pessoas doentes. E essa minha cegueira foi responsável pela formação de várias e várias gerações de máquinas repetidoras de solicitar exames... Não formei médicos, infelizmente...

Certa vez, o escritor Berkeley disse que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã, nem na boca de quem a come. Na verdade, para surgir o gosto, é preciso um contato entre elas – a maçã e a boca. O mesmo acontece na medicina. Sozinhos, médicos e pacientes, nunca serão capazes de degustar o verdadeiro sabor, desta maravilhosa profissão. É na interação entre eles, na relação médico-paciente, respeitosa das identidades e dos respectivos nomes, que poderemos provar o melhor de todos os manjares dos deuses: o amor.

Era por isso, que sentenciou Harold Kushner: “Nenhum de nós conseguirá ser verdadeiramente humano em situação de isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras pelas quais nos relacionamos com os outros”. Então, para a pergunta de Drummond -“Que pode uma criatura senão, entre criaturas amar?”-, a resposta é sim! E a medicina é antes de tudo um ato de amor. Pena que só agora percebi isso...

Tinha razão Jung quando escreveu que só o médico doente é capaz de curar. Pois, só quando nos colocamos no lugar daquele que sofre, quando assimilamos todas das suas mais terríveis provações – desde a longa espera nos nossos consultórios, passando pela difícil comunicação de um diagnóstico de câncer até uma cirurgia mutiladora... – é que conseguiremos entender o que é ser médico.

Ah! Se as escolas médicas, deste país, começassem a fazer uma autocrítica dos seus projetos pedagógicos (onde cargas horárias extensas, de matérias puramente tecnicistas, fossem substituídas, por momentos, como muito bem retratado, por Samuel Luke Fildes, que teve a lucidez de colocar o médico, simplesmente, ao lado da criança que estava morrendo, para mostrar-nos que “o sofrimento somente é intolerável quando ninguém cuida”, como disse Cicely Saunders).

Pois bem! É para vocês, meus caros alunos de medicina - que representarão sempre o futuro da nossa profissão-, que escrevo esta minha última lição. Deixo aqui, o relato de quem teve a oportunidade de ter vivido e não viveu. De quem poderia ter amado e ser amado. De quem não soube aproveitar o dom que me foi dado...
P.S. Dedico este texto ao Jornalista Carlos Santos, que como muitos clamam por uma medicina mais humana.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior
Professor, médico e escritor.


“O médico” - Sir Samuel Luke Fields

02 abril 2012

Edição de março do jornal Medicina

O jornal Medicina de março traz como destaque a cobertura do I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina de 2012 (I ENCM 2012), que ocorreu de 7 a 9 de março, em Brasília (DF). A publicação repercute as análises de especialistas que salientaram que o país precisa se organizar para enfrentar desafios no financiamento, na gestão e nas urgências. Além dessas análises, fundamentais para diagnosticar problemas da saúde pública e traçar meios de enfrentá-los, o I ENCM 2012 representou a oportunidade de se discutir temas relacionados à prática médica, ao controle da profissão exercido pelos conselhos e às estratégias do movimento médico.

Além da abordagem de problemas na saúde pública, as entidades médicas se mobilizam e realizam um protesto no campo da saúde suplementar. Insatisfeitos com os rumos das negociações com as empresas nos estados, a categoria está em alerta contra os baixos honorários praticados pelos planos de saúde e anunciam para 25 de abril uma mobilização nacional de advertência às operadoras. As articulações podem ser conferidas nas páginas da publicação.

Também estão entre os temas abordados na edição 206 a mobilização de diversas entidades que, insatisfeitas texto final da regulamentação da Emenda 29 aprovado em dezembro do último ano, uniram-se para coletar assinaturas para elaborar uma lei de iniciativa popular que obrigue a União a gastar 10% de suas receitas com a saúde.

O leitor pode conferir ainda a recondução da atual diretoria do CFM até setembro de 2014, confirmando os resultados positivos alcançados ao longo dos primeiros 30 meses da gestão; e a sentença favorável ao CFM que acaba com contratos de trabalho de prefeituras acreanas com indivíduos portadores de diplomas de medicina não revalidados.

Confira esses e outros assuntos na edição online do jornal Medicina, disponível a partir desta segunda-feira (2), no Portal Médico: http://portal.cfm.org.br/images/stories/JornalMedicina/2012/jornal206.pdf

Fonte: Portal Médico

23 março 2012

TECNOLOGIA E MEDICINA, UMA COMBINAÇÃO PARA VIVER MAIS E MELHOR

Imaginar o futuro sempre foi uma atitude envolvida por uma atmosfera mágica, repleta de ilusões e engenhocas mirabolantes. No famoso filme da década de 80 “De Volta para o Futuro” ficávamos maravilhados com a possibilidade de em 2015 podermos dirigir automóveis voadores e conversar com pessoas a quilômetros de distância por meio de uma tela.

O mundo mudou e muito nos últimos anos. Embora um pouco diferente do previsto por Hollywood, algumas das evoluções imaginadas hoje são reais no nosso cotidiano. Os tablets e celulares estão aí para provar. Chegamos ao ano 2012 com avanços significativos e revolucionários na área da tecnologia. Inúmeros são os aparatos que conectam pessoas do mundo todo em tempo real, com o simples tocar dos dedos. Novos lançamentos surgem a cada instante, numa rápida e constante evolução.

A medicina, como já era previsível, também foi beneficiada por este desenvolvimento. Foi-se o tempo em que o estetoscópio e depois o eletrocardiograma eram os únicos exames capazes de detectar alguma anomalia no coração. Atualmente contamos com um verdadeiro arsenal de alta tecnologia para auxiliar na prevenção e também no monitoramento de doenças cardiovasculares.

O surgimento da ressonância magnética, do ecocardiograma tridimensional e da tomografia computadorizada significou ganhos imensuráveis para a saúde humana, uma vez que com sua utilização, dentre outros diagnósticos, pode-se detectar a presença de placas de gorduras acumuladas nas paredes das artérias antes que o quadro clínico se torne irreversível, culminando na obstrução dos vasos sanguíneos. Assim, doenças cardiovasculares podem ser previstas e evitadas por meio de medicamentos específicos.

Aplicada nas áreas de oncologia, neurologia e cardiologia, a Tomografia por Emissão de Pósitrons, conhecida por PET Scan, tem capacidade para identificar e avaliar o fluxo do sangue, o oxigênio e a glicose presentes no organismo, o que permite ao médico saber como está a saúde de órgãos e tecidos. A tecnologia detecta tumores e metástases, lesões no músculo cardíaco, alterações de memória dentre outras doenças.

Com o advento da robótica os procedimentos cirúrgicos tornaram-se minimamente invasivos, possibilitando aos pacientes vantagens incomparáveis quanto às cirurgias convencionais. Cateteres são utilizados para troca da válvula cardíaca e há próteses tão sofisticadas a ponto de terem durabilidade prolongada. O desconforto e a dor no pós-operatório são minimizados, assim como a perda sanguínea durante a cirurgia e o tempo de permanência no hospital. Instrumentos acoplados a um robô reproduzem com precisão os movimentos das mãos do cirurgião no momento da operação.

Outro artefato com os dias contados são as agulhas. A medicina já estuda como realizar exames de sangue por meio de eletrodos digitais, os quais, quando em contato com a pele do paciente, serão capazes de coletar os dados necessários e enviá-los automaticamente para avaliação do médico. É a tecnologia a serviço da medicina e da preservação da saúde humana.

Em um futuro não muito distante, teremos diagnósticos imensamente mais precisos e, quem sabe, tratamentos eficazes para doenças hoje incuráveis como o câncer e a AIDS. Descobertas tornaram-se cada vez mais frequentes e o compartilhamento propiciado pela era digital agora permite que o conhecimento se espalhe ao redor do mundo quase que em tempo real, o que significa um ganho imensurável para a nossa história e evolução.

Nós, os médicos, temos o dever de estar preparados para absorver este turbilhão de novas informações e novidades. Muito ainda está por vir. Congressos e especializações não poderão mais ser a única fonte de conhecimento. Precisaremos agregar os estudos da medicina aos conhecimentos tecnológicos. Estar por fora do que se discute pela área médica mundial em termos de avanços da tecnologia é estar alheio ao nosso presente, e sobretudo, ao futuro da humanidade. Quem viver verá.

Américo Tângari Junior
Especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e Associação Médica Brasileira. Integra a equipe de Cardiologia do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo.

22 março 2012

Eu quero o piso da Fenam

Na assembleia dos médicos do estado, realizada na terça-feira, dia 13/03, ficou patente a insatisfação dos profissionais com o tratamento que a categoria vem recebendo do governo.

A precarização do trabalho médico, através de contratações terceirizadas de pessoas jurídicas é uma afronta à lei. O dinheiropúblico tem sido despejado em organizações sociais, em processos de dispensa de licitação e em valores tão vultuosos que deixariam um brinco as unidades públicas, hoje deterioradas e desabastecidas. Os médicos questionam esse modelo e esperam que esse processo seja interrompido.

Por cinco meses de contrato uma empresa responsável pela maternidade de Mossoró receberá quinze milhões de reais, enquanto isso, nas unidades próprias, os médicos denunciaram falta de medicamentos primários e indispensáveis, como anestésicos e antibióticos, além da falta até de papel para enxugar as mãos.

A forçassão de barra para mostrar que o sistema terceirizado funciona melhor que o público é alimentada por vastos recursos aplicados em unidades novas e sufocamento das unidades com administração direta que amargam falta de recursos humanos e financeiros, sobrevivendo na penúria e sendo acusadas de ineficientes.

Fala-se agora que outra empresa administrará unidades em Natal. Nós dizemos não para isso e vamos enfrentar com coragem a tentativa de destruição da rede pública.

Outra grande decisão da assembleia foi a intensificação da luta pelo piso da Fenam. Com o slogan "Eu quero o piso da Fenam" os médicos iniciam as negociações 2012 com o governo estadual, conscientes de que enfrentarão grandes dificuldades.

Foi voz corrente entre os médicos a estranheza do comportamento do governo, que parece ter esquecido e sepultado o relacionamento com os médicos, categoria a que pertence a governadora e que em peso apoiou sua eleição.

De qualquer forma, como dizem os americanos, negócios são negócios. Para nós, conscientes do modelo que defendemos de saúde pública, gratuita e de qualidade para a população, resta lutar. Disposição parece que não faltará aos médicos, a boa frequência da assembleia sinaliza isso.

Geraldo Ferreira Filho
Presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte

Fonte: Federação Nacional dos Médicos - FENAM

20 março 2012

Academias de Medicina manifestam-se contrárias à decisão do CNE

A Federação Brasileira de Academias de Medicina (FBAM), manifestou-se contrária à decisão do Conselho Nacional de Educação (CNE) de reabrir vagas nos cursos de medicina avaliados negativamente pela Comissão de Especialistas instituída pela Secretaria de Educação Superior (Sesu) do Ministério da Educação.

A FBAM mostrou preocupação com as repercussões dessa interferência do CNE para o cenário do ensino médico no Brasil, que, "guardadas as exceções de regra, vive em crise em função da abertura indiscriminada de escolas médicas que não possuem as mínimas condições de oferecer cursos de qualidade à formação do futuro médico".

De acordo com levantamento feito pela Folha de S. Paulo, o CNE reavaliou, entre 2011 e 2012, sete cursos que tiveram corte de vagas – as punições para seis deles foram revistas e, consequentemente; suspensas, e um deles teve o pedido de suspensão da penalidade parcialmente aceito.

A Federação também manifestou apoio às declarações do ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, sobre o assunto, publicadas pela Folha de S. Paulo em 28 de fevereiro. Segundo Jatene "decisões equivocadas como essas servem para desmotivar os que ainda acreditam ser possível corrigir as iniquidades, criadas por influência empresarial ou política, e para reforçar a ideia de que não adianta lutar por dias melhores".

Clique aqui para acessar a nota da FBAM:
http://portal.cfm.org.br/images/stories/pdf/fbampdf.pdf

Clique aqui para acessar a manifestação de Adib Jatene:
http://portal.cfm.org.br/images/stories/pdf/jateneartigo.jpg

Fonte: CFM

12 março 2012

Posição dos Conselhos de Medicina sobre a abertura de novas escolas médicas

Em nota divulgada nesta quarta-feira, dia 7 de março, representantes dos 27 Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) – reunidos em Brasília – reiteram sua posição contrária à proposta do Governo de ampliar o número de vagas e cursos para formação de médicos no país. A nota rebate afirmações do ministro da Educação Aloizio Mercadante.

Segundo os conselhos de medicina, a abertura de vagas e de cursos de medicina e a possível atuação de médicos estrangeiros sem revalidação de diplomas no país são falácias que tentam desviar a sociedade das medidas que, efetivamente, podem colaborar para o fim da desigualdade na assistência em saúde.

Para as entidades, o problema não está no número de médicos, mas em sua má distribuição: “Para combater esse dilema, espera-se a implementação de políticas públicas – como a carreira de estado para o médico – que estimulem a fixação dos profissionais nestas regiões, oferecendo-lhes condições de trabalho, apoio de equipe multiprofissional, acesso à educação continuada, perspectiva de progressão funcional e remuneração adequada à responsabilidade e à dedicação exigidas”.

Números – O Brasil conta com 372 mil médicos e 185 escolas de medicina em atividade. De 1970 até 2011, o aumento do número de médicos foi de 530%; enquanto a população cresceu 104%.

Entre 188 nações, o Brasil é o quinto país do mundo em número absoluto de médicos – perde apenas para China, EUA, Índia e Rússia – sendo que no continente americano 20% destes profissionais em atividade estão aqui.

Em termos proporcionais, os dados mais recentes apontam uma razão de 1,95 médico por 1.000 habitantes no país. Contudo mesmo a média nacional, não é baixa, quando comparado a padrões internacionais: o Japão tem 2,06 médicos por mil habitantes, por exemplo.

No entanto, internamente, essa média não é uniforme: no Sudeste, o índice é de 2,6; e no Norte, fica em 0,8. Ou seja, a desigualdade resulta diretamente da falta de estimulo para que médicos e outros profissionais de saúde deixam os centros mais desenvolvidos e se fixem em áreas distantes.

Veja nota divulgada pelos Conselhos de Medicina:

NOTA DE ESCLARECIMENTO Á SOCIEDADE
Posição dos Conselhos de Medicina sobre a abertura de novas escolas médicas

Sobre a intenção do Governo de ampliar o número de vagas e de cursos para formação de médicos no país, os representantes dos 27 Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) – reunidos em Brasília – reiteram sua posição contrária à proposta e ressaltam o equivoco da solução anunciada.

A abertura de vagas e de cursos de medicina e a possível atuação de médicos estrangeiros sem revalidação de diplomas no país são falácias que tentam desviar a sociedade das medidas que, efetivamente, podem colaborar para o fim da desigualdade na assistência em saúde.

O Brasil conta com 372 mil médicos e 185 escolas de medicinaem atividade. Entre 188 nações, apenas China, EUA, Índia e Rússia nos superam em números absolutos destes profissionais. De 1970 até 2011, o aumento do número de médicos foi de 530%; enquanto a população cresceu 104%.

No país, o problema não está no número de médicos, mas em sua má distribuição, o que dificulta o acesso ao atendimento e gera vazios assistenciais, inclusive nas periferias dos centros urbanos.

Para combater esse dilema, espera-se a implementação de políticas públicas – como a carreira de estado para o médico – que estimulem a fixação dos profissionais nestas regiões, oferecendo-lhes condições de trabalho, apoio de equipe multiprofissional, acesso à educação continuada, perspectiva de progressão funcional e remuneração adequada à responsabilidade e à dedicação exigidas.

Sem essas medidas, o Brasil não terá as respostas que precisa e, pior, corre-se o sério risco de comprometer a qualidade do exercício da Medicina no país, com a formação de médicos em escolas comprovadamente sem condições de funcionamento, conforme relatório do próprio Ministério da Educação.

Os Conselhos de Medicina estão dispostos a colaborar com este debate e esperam que as autoridades assumam sua responsabilidade, evitando iniciativas de caráter populista e adotando caminhos que tragam ganhos efetivos para a sociedade.

Fonte: CFM

06 março 2012

Jornal Medicina (edição de fevereiro)

A implantação do CRM digital para médicos, com chip para certificação digital e novos itens de segurança; os critérios do CFM para reconhecer novos procedimentos; e os parâmetros éticos e de boas práticas para a relação médico-indústria são os destaques da edição de fevereiro do jornal Medicina, do Conselho Federal de Medicina (CFM).

A publicação, disponível a partir desta segunda-feira (5) no site da entidade, aborda ainda temas como a aprovação do projeto que regulamenta a medicina pela CCJ do Senado; o engajamento de entidades que lançaram projeto para rever a lei que regulamentou a EC 29, com o objetivo de obter mais verbas para o SUS; e a crítica do CFM ao CNE, que ignorou o trabalho de avaliação de cursos de Medicina ruins e recriou vagas cortadas.


Fonte: Portal Médico

01 janeiro 2012

Sou médico, meu trabalho tem valor

O título deste artigo foi slogan de campanha das entidades médicas nacionais, em 2004, pela valorização do trabalho médico e da medicina. Passados quase oito anos, a situação pouco mudou, a despeito da luta incessante de instituições como a Associação Médica Brasileira (AMB). É certo que conquistas foram obtidas, como no recente movimento na saúde suplementar. Em vários Estados do País operadoras de saúde promoveram reajustes em consultas durante 2011. Mas ainda não chegaram aos patamares mínimos reivindicados pelos médicos nem resolveram a dramática defasagem dos demais procedimentos.

A exploração do trabalho médico impacta diretamente a qualidade da medicina, bem como a assistência aos cidadãos. Para quitarem suas contas e garantirem sua sobrevivência médicos são obrigados a acumular vários empregos, cumprindo jornadas de 60, 70 ou mais horas semanais. Nenhum indivíduo, seja de que área for, consegue manter a excelência de seu trabalho com tamanha sobrecarga. Mais alarmante ainda é ver que a problemática da desvalorização do médico e da medicina parece atender a uma política deliberada. Se juntarmos algumas peças do quebra-cabeças da saúde, é a essa conclusão que chegaremos, fatal e lamentavelmente. Vamos mudar esse rumo!

O Brasil é um dos países que menos investem em saúde no mundo. Meses atrás, a Organização Mundial da Saúde divulgou relatório anual com dados sobre a saúde no mundo, entre eles os investimentos no setor por país. Entre os 192 avaliados, ocupamos a medíocre 151.ª posição. Aqui a parcela do Orçamento reservada à saúde é em torno de 7%. A média africana, extremamente mais pobre e com inúmeros problemas sociais, é de 9,6%.

O Sistema Único de Saúde (SUS) sofre com recursos insuficientes, impedindo a prática da boa medicina. A triste consequência surge com significativa parcela de profissionais qualificados se afastando cada vez mais da rede pública. Isso sem falar nos salários irrisórios; na tabela do SUS, que, por exemplo, remunera uma consulta básica de clínico geral, ginecologista e pediatra em menos de R$ 3; na falta de um plano de cargos e vencimentos, de uma carreira de Estado; na violência nas periferias - entre tantos outros complicadores.

São conhecidas por todos as péssimas condições de trabalho e assistência no SUS, gerando frustração e desmotivação. Graves obstáculos ao atendimento adequado marcam o dia a dia de postos de saúde, ambulatórios e hospitais. Quanto mais carente a região e mais necessitada a população, pior é o quadro, bem evidenciado nas longas filas de espera por consultas, exames e cirurgias. Angustia-nos ver pacientes jogados em macas nos corredores, a falta de profissionais, de medicamentos e equipamentos. Mortes evitáveis ocorrem, em especial nas grandes emergências.

Se já consideramos o retrato da saúde pública como filme de guerra, vejamos o que mais há por aí. Nos últimos anos faculdades de medicina foram criadas às dezenas de norte a sul do País, a maioria escolas privadas (estarão visando somente o lucro?) sem estrutura mínima para formar bons médicos. Falamos de cursos sem hospital-escola, com corpo docente não adequadamente qualificado, bibliotecas precárias, grade pedagógica deficiente.

O resultado é o que vimos dias atrás, quando o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo apresentou o resultado das avaliações de prova facultativa com estudantes do último ano de Medicina. Quase metade deles não sabe interpretar uma radiografia, fazer um diagnóstico após receber as informações dos pacientes. Metade ainda faria o tratamento errado para infecção na garganta, meningite e sífilis e não é capaz de identificar uma febre alta como fator que eleva o risco de infecção grave em bebê. O que podemos esperar? E nossos filhos, pais, amigos e parentes de pessoas formadas com tamanha insuficiência de conhecimento? É, de fato, assustador.

Poderíamos parar por aqui para alicerçar o argumento de que médicos e medicina vêm sofrendo ataque deliberado nos últimos anos, assim como a assistência à população. Mas há muito mais. Agora o governo federal, com a cumplicidade de alguns Estados, sinaliza a possibilidade de facilitar a revalidação de diploma de médicos brasileiros formados na Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba. Comenta-se que a ideia é permitir que façam estágio em hospitais públicos, recebendo bolsa (com recursos de nossos impostos), enquanto fazem cursinho de reforço para se prepararem para uma prova. Um absurdo, que merece o devido parecer do Ministério Público Federal. Por que essa predileção por Cuba? Não somos contra médicos formados fora do Brasil virem morar e trabalhar aqui, mas defendemos direito igual para todos.

Existe o Revalida, devidamente chancelado pelo Ministério da Educação e que deve ser o caminho para todos os que querem revalidar o seu diploma obtido no exterior. Fortaleçamos o Revalida e não permitamos que qualquer faculdade ou universidade faça revalidação de diploma fora desse contexto.

Defendemos o sistema público de saúde. Não é possível o SUS continuar com recursos insuficientes e profissionais desvalorizados. Ao fazer vista grossa para a má formação e facilitar o ingresso na linha de frente da assistência de quadros não capacitados formados no exterior, afrontam-se as reais necessidades dos cidadãos brasileiros, põem-se em risco a saúde e o bem-estar dos pacientes, desvalorizam-se os bons médicos e bombardeia-se a nossa medicina - hoje ainda uma referência como excelência.

Como presidente da AMB, registro publicamente para que fique claro: reagiremos à altura em nome da boa prática médica e da adequada assistência ao povo brasileiro. Jamais defenderemos castas, pois queremos uma mesma medicina para todos. Deve prevalecer sempre o mérito, e não vieses surgidos de arroubos, que não sabemos que interesses defendem. Sou médico e tenho compromisso com a vida, com a medicina e com a saúde da população.

Florentino Cardoso, presidente da AMB

Fonte: O Estado de S.Paulo

26 dezembro 2011

Jornal Medicina traz censo de especialistas (edição de dezembro)

O jornal Medicina 203, disponível a partir desta segunda-feira (26) no Portal Médico, do Conselho Federal de Medicina (CFM), traz como destaque a desigualdade no acesso a especialistas desvelada no censo brasileiro de médicos especialistas e generalistas – um dos desdobramentos do estudo inédito apresentado pelo CFM em novembro: “Demografia médica no Brasil: dados gerais e descrições de desigualdades”.

Uma importante constatação do censo – de que os profissionais das especialidades básicas (Cirurgia Geral, Clínica Médica, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, e Medicina de Família e Comunidade), somados aos generalistas, representam 65,62% dos médicos brasileiros – coloca em discussão a alegada falta de médicos para o atendimento médico primário. Na matéria sobre o tema, os representantes das duas especialidades que agregam mais médicos no país (Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia) comentam a questão.

Também está entre os temas abordados em dezembro a iniciativa que está mobilizando médicos de todo o Brasil: uma campanha permanente do CFM de luta em busca de crianças desaparecidas. A edição traz algumas recomendações aos profissionais para serem adotadas no atendimento a crianças em hospitais, prontos-socorros e clínicas do país (como pedir a documentação do acompanhante, analisar as atitudes da criança e ver se existem marcas físicas de violência) e indica os locais onde materiais de divulgação poderão ser encontrados.

A publicação do Conselho traz ainda matérias sobre a aprovação da regulamentação da Emenda Constitucional 29 e a opinião da entidade sobre o texto final; sobre o manual de publicidade em medicina, que traz orientações e exemplos de aplicação das novas regras estabelecidas pela Resolução CFM 1.974/11; e sobre questões éticas suscitadas diante do problema da atribuição inapropriada de autoria em periódicos biomédicos; entre uma série de outros assuntos.

Para acessar o jornal clique aqui (PDF): http://portal.cfm.org.br/images/stories/JornalMedicina/2011/jornal203.pdf

03 novembro 2011

Qual o valor da Medicina?

Em 2007, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) realizou campanha no estado baseada no valor do médico. O tema pertinente nos levou à reflexão de que, no momento atual, tornou-se ainda mais amplo. Neste sentido, na semana em que se comemorou o Dia do Médico (18 de outubro) proponho a seguinte questão: Afinal, quanto vale a Medicina?

Ora, a Medicina trabalha em prol da vida e do bem estar dos indivíduos e do coletivo. Sendo assim, podemos considerar que ao valorizá-la está sendo valorizada também a própria existência de cada ser humano. Trata-se de atividade prioritária, sem a qual a noção de civilização estaria sob ameaça, e que, portanto, deve ter sua “essencialidade” reconhecida.

Isso deve gerar o estímulo à boa prática médica e à melhora da assistência. Para tanto, impossível ignorar a importância da adoção imediata por parte dos gestores – públicos e privados – de medidas que representem a oferta de melhores condições de trabalho aos profissionais, o respeito à sua autonomia no atendimento dos pacientes e o retorno a cada médico de honorários dignos e adequados, correspondentes à formação e à responsabilidade que lhes são exigidos.

Atualmente, assistimos nossa categoria se mobilizar. Na Saúde Suplementar, consolida-se a luta contra as operadoras, cuja cultura do lucro ignora a vida. No âmbito do SUS, aumenta a insatisfação com a indiferença histórica dos tomadores de decisão, que compromete a prática da Medicina e o direito dos 190 milhões de brasileiros de acesso universal, integral e equânime a serviços assistenciais, conforme previsto na Constituição e em leis específicas.

Com o apoio às manifestações dos médicos contra os abusos cometidos pelos planos de saúde, em setembro, e a mobilização ocorrida em 25 de outubro, na qual foi defendida a atenção aos problemas enfrentados no âmbito do SUS, o Conselho Federal de Medicina (CFM) materializa sua vocação de enfrentamento das forças que oprimem os médicos e a Medicina. Ressaltamos, novamente, não se trata de ação corporativista, como apregoam alguns. Significa, na verdade, compromisso ético com a vida humana.

Seremos, sim, corporativos se isso representar o pleito para que os médicos possam trabalhar plenamente, garantindo aos seus pacientes o diagnóstico e o tratamento que esperam. Seremos, sim, corporativos, se formos obrigados a manter o confronto com os empresários que penalizam a população seduzida por promessas de atendimento diferenciado.

Estaremos alertas contra as soluções mirabolantes e falaciosas que fazem um desserviço à Nação. Desprovidas de base científica, elas não atacam a raiz dos problemas, mas fazem o nocivo jogo do marketing político, no qual as promessas são mais importantes que a realidade.

Por isso, bradamos alto contra a abertura de novas escolas médicas, pois o país não necessita de mais médicos, mas de uma carreira de Estado que estimule sua fixação nas áreas de difícil provimento. Também combatemos os argumentos que pretendem estender a outros profissionais a possibilidade do diagnostico e da prescrição, uma prerrogativa dos médicos cuja flexibilização coloca a segurança de todos em risco e abre as portas para a assistência de segunda linha, reservando os médicos apenas aos ricos.

Os médicos não pactuam com o silêncio. Por meio do CFM, eles se expressarão com o intuito de construir um projeto legítimo de Brasil. A sociedade nos acompanhará nesta jornada, pois, enxerga na Medicina o abraço solidário negado por tantos. Juntos, mostraremos – acima de tudo – o valor da vida.


Roberto Luiz d´Avila

Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM)

09 outubro 2011

Juramento de Hipócrates

Nenhuma profissão caiu tanto no conceito da opinião pública no Brasil como a medicina nas últimas décadas. A população brasileira hoje diz ser mal atendida. E não o faz sem uma certa razão. Há uma longa espera até se conseguir marcar uma consulta médica ambulatorial. No sistema público, podem-se aguardar meses, às vezes mais de um ano a depender da região e da especialidade pretendida. Nos planos de saúde, o tempo é menor, mas pode chegar de semanas a alguns meses.

Reclama-se que os planos de saúde são caros e que não cobrem todos os procedimentos necessários. Critica-se com veemência a falta de estrutura das unidades básicas de saúde, o caos dos pronto-socorros. Ouvimos ainda que o médico não mais examina seu paciente, muito menos escuta suas queixas. E tais reclamações são todas injustas e correspondem a uma tentativa de caluniar a medicina? Certamente que não. Mas cabe aqui uma pergunta fundamental: a culpa desta situação é toda da classe médica?

Em primeiro lugar, não acredito ser necessário destacar a carga horária de trabalho da maioria dos médicos. Sessenta, noventa, até cento e dez horas por semana. Portanto, não acho sensato atribuir à falta de disponibilidade do médico a espera a que a população é submetida. Os médicos atendem. E muito. Inclusive mais do que deveriam, chegando à exaustão após horas de plantão. E se atendem rapidamente, são criticados por não dar atenção ao paciente. Demoram-se na consulta, os que aguardam reclamam da demora para o atendimento.

Também não poderíamos dizer que há um número insuficiente de profissionais. Temos hoje mais médicos do que o necessário segundo a Organização Mundial de Saúde. Então por que a população espera tanto por atendimento? Um dos problemas é a escassez de algumas especialidades em contraste com a abundância de outras. E não é muito difícil entender o motivo. Hoje, o valor pago por uma cirurgia de colocação de prótese mamária é maior do que o de uma cirurgia cardíaca. Reclama-se ao pagar vinte reais por uma consulta, mas paga-se dez mil reais por uma cirurgia plástica. É algum absurdo que os recém-formados busquem especialidades onde serão melhor remunerados? Se a sociedade valoriza mais a estética do que a saúde, a culpa é da classe médica?

Outro grande problema é a má distribuição de médicos entre as diversas áreas do Brasil. É exigido do médico que não se submeta a condições de trabalho que julgue inapropriadas, sendo inclusive o mesmo responsável por prejuízos ao paciente em caso de falta de recursos para o atendimento. Se determinado local não tem o número de profissionais de que necessita, deveríamos rever que condições de trabalho estes lugares oferecem. Querer que o médico vá para onde ele é necessário e depois responsabilizá-lo pela falta de estrutura é no mínimo injusto. Portanto, é culpa dos médicos se concentrarem em alguns centros em detrimento de outros?

Acredita-se que os médicos sejam bem remunerados e quando os mesmos lutam pelo aumento de seus honorários são vistos como mercenários. Mas trabalhando cento e dez horas por semana, qual profissional com nível superior não ganharia mais? Se um médico decidir trabalhar as mesmas quarenta horas semanais de outras profissões (para não citar as que cumprem metade disto), certamente não ganharia tão bem.

Um plano de saúde paga por consulta de vinte a cinquenta reais. Se considerarmos gastos com aluguel de consultório, equipamentos de trabalho e impostos, talvez seja melhor não calcular a remuneração de um atendimento. Mas dizem que os médicos credenciam-se em planos de saúde porque querem e, portanto, têm que aceitar o valor que recebem. Porém, quando se discute que não mais se atenda por tais planos, somos acusados de não querer atender a população. Quer dizer que somos obrigados a nos sujeitar a empresários com patrimônios bilionários e que nos desrespeitam com remuneração pífia? É por acaso algum crime querer que depois de seis anos de faculdade, três a seis anos de residência, alguns com mestrado e doutorado, queiramos receber mais do que o valor de um corte de cabelo para cuidar e nos responsabilizarmos por vidas? Não posso acreditar que sim. Porque se isto for verdade, se a população não acha que o valor de um médico é superior a vinte reais, então não são os médicos que faltam com respeito à população. É a população que deveria se envergonhar de tal postura.

Se o valor pago por um plano de saúde é alto, acredito ser direito dos clientes reclamarem. Para o plano de saúde, não para o médico. E por que os planos são tão caros, se o médico recebe tão pouco? Os motivos são vários, a começar pelo lucro dos intermediários.

Vivemos nas últimas décadas um encarecimento da medicina. Com o surgimento de novas tecnologias, o custo de um atendimento passou a ser bem maior. Certamente, a qualidade também melhorou, pelo menos para quem tem acesso a tais recursos. Ressonância nuclear magnética, testes genéticos, próteses e órteses, stents coronarianos, anticorpos monoclonais, para citar alguns exemplos, passaram a integrar o arsenal da medicina moderna. Tudo isto é muito caro.

Os diagnósticos médicos, antes baseados em história clínica e exame físico, hoje podem exigir exames que custam de centenas a milhares de reais. E os pacientes muitas vezes exigem que tais exames sejam feitos, mesmo sem saber se são indicados para aquele caso. É freqüente ouvirmos que "o médico não pediu nenhum exame" como algo negativo, como sinal de incompetência ou negligência. Se o custo de exames complementares encarecem a medicina quando bem indicados, imaginem quando usados de forma indiscriminada. Mas solicitando vários exames, todos ganham. Os médicos são bem vistos, os pacientes ficam satisfeitos, os donos das máquinas nem se fala. Só não devemos esquecer de que bolso virá o dinheiro.

Por outro lado, há aqueles que necessitariam de procedimentos de alto custo e que não tem acesso aos mesmos. Limitar a medicina moderna àqueles que têm dinheiro, não me parece justo. Da mesma forma que não acho justo que muitos não tenham acesso à alimentação, segurança, educação e moradia. Mas não vejo ninguém dizer que os advogados deveriam defender as pessoas por vinte reais, que os agricultores são mercenários por quererem vender a comida a quem tem fome ou que os engenheiros deveriam construir casas para os desabrigados sem nada cobrar e pagando do seu bolso os materiais de construção. Quer dizer que só os médicos são culpados pelas mazelas da sociedade? E mesmo que o médico abrisse mão de sua remuneração, quem vai pagar os exames, remédios, internações? Nesta conta, o honorário médico é o que menos pesa.

Dito tudo isto, acho que a resposta para a minha pergunta é não. Os médicos não são os únicos culpados pelo alto custo da medicina, pela demora do atendimento aos pacientes, pela exclusão de uma grande parcela da população a um atendimento de ponta. Antes de tudo, assim como a população, somos vítimas.

Por fim, muitos podem criticar este texto por ter sido focado em custos, dinheiro, reconhecimento, ao invés de falar de características que a profissão médica deveria ter, como humanismo, dedicação, humildade, caridade. Não posso deixar de reconhecer que, assim como em outras profissões, hoje estas qualidades faltam a parte da categoria médica. E disto nós temos culpa e, neste ponto, devemos um pedido de desculpas à população.

Acho inadmissível o fato de que existam médicos que hoje nem sequer fazem um exame clínico completo e bem feito, que cedem às pressões para um atendimento rápido e em escala, que pedem exames sem necessidade apenas para não perder tempo explicando para o paciente as indicações e riscos de cada procedimento. Envergonho-me ao ver colegas tratando de forma diferente as pessoas por serem atendidas pelo SUS ou em consultórios particulares, em presenciar a indiferença diante do sofrimento alheio. Certamente acho que a medicina deva ser uma profissão humanitária, que o médico deva se preocupar em atender a população carente, e não apenas os mais abastados. Mas acho que merecemos mais respeito e reconhecimento ao fazê-lo.

Talvez isto não passe de nossa obrigação, do juramento que fizemos ao nos formar, como muitos gostam de lembrar nestes momentos. Mas em um país onde a maioria não cumpre os seus deveres, onde promessas feitas hoje são esquecidas amanhã, é um grande mérito ter palavra. E para quem não conhece o juramento de Hipócrates, sugiro que o leiam antes de citá-lo, para que não incorram em erro por ignorância.

Como na maioria dos relacionamentos, seja entre irmãos, amigos, pai e filho, homem e mulher, quando as coisas não vão bem, os dois lados tem sua parcela de responsabilidade. Não adianta procurarmos um culpado. E não é diferente na relação médico-paciente. Se chegamos ao desgaste atual, é hora de cada parte rever sua postura. Só assim voltaremos àquilo que é o desejo de todos: uma medicina bela e eficiente, caridosa e reconhecida, trabalhosa e recompensada, difícil, mas, acima de tudo, que leve alívio àqueles que sofrem, vida onde há incerteza e consolo onde este se faz necessário. Que assim seja.

Rafael Ximenes

Médico e escritor, membro da Sociedade Brasileira de Escritores Médicos (Sobrames), com 3 livros publicados.

25 setembro 2011

Entenda o que é a Hipertensão Portal, mal que afeta o ex-jogador Sócrates

As internações vividas pelo ex-jogador do Corinthians e médico Sócrates são consequência de um problema nas veias do fígado chamado hipertensão portal. O ídolo do futebol brasileiro sofre com problemas de cirrose no órgão.

Na quinta-feira (22), o ex-jogador recebeu alta de sua segunda internação no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ele deu entrada no hospital com uma hemorragia digestiva no último dia 5.

Sócrates ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde recebeu drogas para controlar a pressão arterial, e chegou a precisar da ajuda de aparelhos para respirar.

Em agosto, o “Doutor” já havia passado nove dias no hospital por conta de sangramentos no estômago.

A doença
A hipertensão portal leva esse nome por ser um problema de comunicação da veia porta — responsável por levar sangue até o fígado — com os vasinhos do órgão, conhecidos como sinusoides.


Um fígado saudável normalmente limpa o sangue para que este possa ser devolvido às outras regiões do corpo sem substâncias tóxicas — eliminadas por meio da bile, uma secreção produzida pelo próprio órgão.

Mas quando comprometido por anos de agressões, sejam elas tóxicas — causadas, por exemplo, pela bebida alcoólica — ou virais, o fígado começa a ficar comprometido. No caso da hipertensão portal, novas veias são usadas para levar o sangue ao órgão, já que a veia cava está impedida de fazer o serviço.

“Cicatrizes são criadas dentro dos vasinhos do fígado. É um tecido fibroso, sem função, que bloqueia o sangue de chegue às células do fígado”, explica o médico Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH).

Cirrose
O próprio ex-jogador admitiu em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, que a sua situação atual é um preço pago pelo abuso de bebidas no passado. “Eu tenho um ponto cirrótico. É uma lesão que não é tão grave, mas ela está localizada em área hipersensível do fígado. Essa lesão é causada, fundamentalmente, por álcool”.


Assim como no caso de Sócrates, o sangue de uma pessoa com cirrose não consegue circular corretamente dentro do fígado. “É uma situação potencialmente grave, especialmente quando o paciente tem cirrose no fígado”, diz Raymundo Paraná.

Segundo o médico, a doença é silenciosa. “Para se chegar a esse problema é preciso abusar 20 anos do fígado, independentemente das causas [virais, tóxicas]“, diz. “É uma doença que envolve todo o fígado.”

Francisco César Carnevale, chefe do serviço de radiologia intervencionista do Hospital das Clínicas e do Sírio-Libanês, ambos em São Paulo, explicou por que a doença causa a hipertensão portal. “O fígado cirrótico diminui de tamanho e fica endurecido. Por causa disso, diminui a passagem de sangue dentro dele”, afirmou.

Os sangramentos no esôfago e no estômago também estão relacionados diretamente ao problema. Depois de ser filtrado no fígado, o sangue vai para o coração. Como não há acesso ao fígado, “o organismo vai desenvolvendo redes de fuga”, explicou o médico, comparando o sangue ao trânsito.

As vias alternativas são outras veias da barriga e do tórax e, como elas são mais frágeis, pode haver sangramentos. Outro risco é o acúmulo de líquido na barriga (ascite) ou nos pulmões (hidrotórax).

Tratamento
No caso de Sócrates, remédios foram usados para baixar a pressão arterial e procedimentos de endoscopia que buscam “pinçar” os vasos para reduzir os vazamentos de sangue. Para Raymundo Paraná, manobras como as utilizadas pela equipe médica do Albert Einstein são as medidas comuns tomadas em centros de referência para o tratamento da doença.


Há ainda uma tecnologia conhecida como TIPS (sigla em inglês para anastomose portossistêmica intrahepática transjugular), que pode ser aplicada em casos de hemorragia por hipertensão portal. “É um material colocado na veia porta que faz o sangue ser levado diretamente ao fígado, sem passar pelos vasinhos sinusoides”, explica o médico.

“O TIPS funciona bem na maioria dos casos, mas podem ocorrer novos sangramentos”, diz. “É um procedimento usado para manter o paciente vivo e depois adotar a terapêutica tradicional, que vai salvar e garantir a qualidade de vida”.

Este tratamento definitivo pode ser, em casos mais graves, um transplante de fígado. “Há gente que vive com cirrose e não apresenta problemas. Para quem não tem a mesma sorte, o procedimento que poderá ser adequado é mesmo transplantar um outro órgão”, diz Raymundo Paraná.

Já Carnevale é um pouco mais pessimista. “A grande maioria dos pacientes de cirrose precisa de transplante”, ele apontou. Segundo ele, o TIPS funciona muito bem por dois anos, tempo suficiente para a sobrevida de quem está na fila, esperando por um novo fígado. “É uma maneira de melhorar o paciente clinicamente para avaliar um futuro transplante”, definiu.


Fonte: Portal G1

 
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